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Nobreza e melancolia: o espírito, sua miséria, a Esperança e a Angústia

12 de jan. de 2017
3 min de leitura

NOBREZA E MELANCOLIA:

o espírito, sua miséria, a Esperança e a Angústia

“O desespero imenso é coisa pesada demais para se carregar. São as nossas noites de Getsêmani. Mas as verdades esmagadoras desaparecem ao serem reconhecidas”.

Albert Camus. In O mito de Sísifo



A intensa Angústia carrega o plácido horizonte de plúmbeas nuvens; as cores da luz do sol drena; e céu e terra e corpos torna cinza. É-se encarcerado por uma incessante chuva; e a janela fechada permanece só. Num quarto, a Esperança descrê de si, de sua vitalidade original; contrai-se num recôndito; e lamenta o que ainda não se tornou.


A Esperança faz-se exígua dentro dos muros húmidos em que se asila; sua visão é distorcida, e os dias, todos, tornam-se, como o hoje, cinzas. A Angústia intensa proclama-se patrona régia do ser; turba a placidez; instaura nas lembranças a desordem e demove, dele, estima e habilidades. A depressão é como o negativo de uma força que, antes de algo acrescentar, pilha do ser sua potencialidade.


Destituído de si, o espírito sente-se prenhe de nada, vazio consigo e incapaz daquilo que é; assemelha-se a um fraco sem vontade; é tomado por uma ansiedade paralisante que o constrange diante do futuro enquanto lhe oprimem as lembranças do passado. Os fortes espíritos desesperançados quase não animam os resistentes corpos que vivem hoje como vivem o ontem e o antes, e o antes. E assim, como todos que já sofreram com tal ansiedade, eles – estes fortes espíritos – inibem-se diante da desordem perpetrada pela Angústia; inibem-se – pior – ao vislumbrar suas próprias forças. Duvidam de si mesmos, de todos seus feitos e possibilidades futuras, pois o futuro lhes é turvado por uma neblina densa. Essa hesitação condiz com tal estado. Aqueles que conhecem o estado de potência do sujeito afligido por tamanha tristeza negam-se a enxergar a miséria em que estes se encontram. É tarefa árdua e dolorosa abdicar das expectativas de possibilidades de alguém querido e acolher sua miséria; vê-lo curvado no chão em sofrimento e respeitá-lo por sua nobreza. Por olhos moralistas essa dor é julgada como insolência e despeito.


Os gritos por auxílio são condenados, pois seu sofrimento oprime quem os ouve; e mais aflitos e revoltosos tornam-se quando são ignorados. Ignorados e cada vez mais ignorados, são feitos exilados. Aqueles que sofrem com uma depressão são, paulatinamente, abandonados; são desacreditados, pois os remédios que lhes são oferecidos não dão conta de seu desespero, e nenhuma racionalização basta para uma alma cansada. Carregar uma pedra pesada dentro do peito é pena demasiadamente incompreensível. A ignobilidade descrê de um sofrimento maior; deprecia-os e rebaixa-os.


Não entraremos neste tema, mas é importante dizer: a perversão é filha da ignobilidade. A melancolia é digna de nobreza e não deve ser rebaixada. A triste miséria consome o espírito e carne humanos. A eles ela é inerente – e todos já a conhecemos: uns por uma vida, outros por um longo tempo, uns apenas brevemente. (É certo afirmar também que nem todos se dispõe a reconhecê-la quando a reveem). Ela é digna, por sua essência, de um tratamento alto – por sua essência: pela essência de quem com ela vive.


O esforço empreendido para se viver em dias cinzentos é dos maiores. O necessário é realizado a altos custos de energia humana; cansa-se o espírito diante de singelas tarefas cotidianas. Tudo é pesado; tudo é lento e vagaroso. E manter uma vida sob esta dura pena é demasiadamente custoso. O cansaço da vida cotidiana é suficiente para levar o sujeito a pesar: “vale a pena? Por quanto tempo valerá esta pena?”.


O colapso total é sentido a cada noite. E o claustro impede a visão de um novo dia. Num dia, num canto, a sós, sob uma janela, esta reflexão é nobre e soberba. Nem sempre se é capaz de pensar sobre a vida; somente a nobreza capacita o espírito para isso; e a solidão o favorece. Acompanhada de si mesma, a alma turbada, revolvida, ora vislumbra o nascer do sol sobre um campo verde abatido e revirado pela Angústia. Tudo vencido; tudo passado. Chega a hora de decidir-se o que fazer consigo; de levantar-se; de planificar a vida num mapa, estendê-la por sobre uma mesa: analisar o campo a frente. Hora de vislumbrar as forças; equacionar as próprias potências. Instrumentar-se de si. A vida se transforma quando empreendemos esforço à conquista. E a Esperança, resoluta, decide acerca de sua alma retorcida e de sua carne ensanguentada.


O paradoxo da miséria da vida é que ela não pode ser extirpada; é inerente; é matéria, mármore entalhável. A experiência humana é campo de batalha e de cultivo. Os melhores frutos nascem em campos à força trabalhados. A Esperança, de túrgida raiz, num campo enlamaçado, retorcido e ensanguentado, não pode ser arrancada de suas bases; mas se torna forte pela própria experiência; instruída por sua própria análise; porquanto é inexpugnável por sua nobreza.




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