SIM
- 25 de dez. de 2016
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SIM
“‘Sim, se o tempo estiver bom amanhã’, disse Mrs. Ramsay. ‘Mas vocês terão que madrugar’, acrescentou.
“Essas palavras trouxeram ao seu filho uma extraordinária alegria, como se tudo estivesse arranjado e a excursão fosse obrigada a acontecer, e depois da escuridão de uma noite e do passeio de barco de um dia, o milagre pelo qual ele vinha esperando ansiosamente – por anos e anos, parecia-lhe – estava enfim ao seu alcance”.
Virgínia Woolf. Ao Farol.
Um sim demanda condições. O sim da noiva é único. O “Aceito!” aceita todo bom negócio. O “Combinado!” é um sorridente aperto de mão.
O sim é uma entidade tripartite. Relacionado à ação, ele é constituído de força, coragem e desejo de transformação. Seu processo de constituição dura um momento que se autoalimentada; é sempre agora, no já. Suas três dimensões se entrelaçam como raízes de árvores repletas de capilares minúsculos trocando a mesma alva substância e seus derivados.
O sim exige forças do próprio espírito, uma luz vital imanente do coração humano que repousa acima do horizonte azul. Essa força surge decidida; brilha convicta, rodeando uma torre alva. Sua substância surge; permeia; cresce na massa do ser. Uma força natural, espírito que encarna o corpo: celeste dom que anima a massa.
O sim é entrega: abrir os olhos ao cegante lume orientador; clarear-se na certeza que se recebe num momento; agir no já. Eis, então, que a dubiedade da noite iluminada estremece-nos. Seria; deveria; poderia: ou não? Coragem pouca é hesitação. Mais ou menos: temeridão. Sempre tememos a incerta noite – a temeremos sempre? Até aprendermos as regras da navegação: lua, estrelas e lume: nesta hora, enxergando-se, pilota-se às cegas. Coragem é um persistente esforço em prol do que é certo. Começa pequena e rápido cresce; ascende; domina.
Certos, avançamos em nosso caminho. Se a dúvida permeia algo, travamos tudo; e o tempo se esvai. Cada passo evoca convicção. Convicção é a certeza do que é justo, necessário, e virá; de um lugar certo e em construção. Para se chegar ao farol, é necessário madrugar; botar beiras no sonho.
Os maiores sins foram dados a pedidos certos, na noite, em viagens perdidas de destino firmado; quando céu e mar uniram-se na vasta paralisação de uma negra dúvida; no momento precedente, quando olhou-se para dentro e viu-se claramente; e mirou-se o alvo. Num trem, as árvores correm; as casas mudam; o não-tempo, parado. E a transformação acontece no silêncio: estado de emsimesmo; coração aplicado, substância mesma da ação.
Nestas condições, à frente, vê-se o que está ao próprio alcance. O milagre é feito no empenho; na força de espírito precisa, feito compasso, para se delinear um sonho; na convicção de um tempo bom, de que apenas a, sob qualquer circunstância, benévola natureza e a ação necessária nos separa dele; numa viagem, numa embarcação solitária, com bússola e compasso próprios sobre um mar azul.


























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