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Velocidade e ansiedade: o dia em que o homem criou mais tempo

  • 2 de jan. de 2017
  • 3 min de leitura

VELOCIDADE E ANSIEDADE:

o dia em que o homem criou mais tempo

“(...) e já passou o tempo em que o tempo não contava. O homem de hoje não cultiva mais aquilo que não pode ser abreviado.”

Paul Valéry




No advento da era moderna, o mundo mudou. O surgimento da máquina a vapor conferiu ao homem uma força sobre-humana; ainda que transformada a partir da natureza, mas amplificada, tornada maior que a natureza do corpo. As estradas de ferro, a locomotiva e o barco a vapor, encurtaram as distâncias entre pontos antes inalcançáveis sem o esforço do corpo de quem lá desejava chegar. Avançar por matas cercadas de selvas no interior do continente africano ou pelo verde equatorial de mata úmida e fechada demandava uma força de espírito capaz de pôr-se em risco. No início do século XVIII, meses e semanas eram necessários para se atingir determinados locais do planeta; alguns, inatingíveis, chegava-se apenas por meio da imaginação. Os limites eram dados; se conhecia-os. O tempo hibernal de cada noite era sabido; o curso do sol, bem conhecido; todos os dias. E as únicas alterações, fenômenos da natureza ou as chamas das velas que iluminavam as noites, foram incorporadas havia milênios, sem significativas alterações, até então.


A máquina a vapor, marco de uma era, alterou o tempo. Nossa forma de relação com o tempo medido foi ressignificada de acordo com uma velocidade que fora, inicialmente, mal calculada. Médicos alemães alertaram sobre a velocidade: recomendaram a construção de muros em torno de estradas de ferro a fim de esconder de olhos humanos a velocidade da locomotiva em curso; seus pareceres afirmavam que a “infernal” velocidade poderia provocar “alucinações”. A locomotiva a vapor e outros maquinários produziram não apenas o encurtamento de distâncias, mas também um estiramento do tempo. O carvão que demorava horas para subir da mina à superfície passou a demorar minutos; o percurso que operários realizavam da superfície ao fundo da mina foi abreviado como nunca antes. O espaço foi encurtado; o tempo, esgarçado. O homem criou algo que o fez ilusoriamente crer que lhe conferiria uma força tão grande como a de seu espírito.


Os efeitos produzidos pela velocidade maquinal foram além destes. A lógica econômica que se buscou aplicar na administração do tempo e do espaço produziu também efeitos sobre o homem. “Alucinações” foram os primeiros observados. Rapidamente, fomos tomados pela sensação de que o ilimitado poderia ser alcançado; que a força sobre-humana da máquina poderia alçar o homem a lugares inimaginados. E isto foi feito. A primeira expedição exitosa chegou ao Polo Sul em 1911. Todos os lugares do planeta foram alcançados, enfim; outros, fora dele. O tempo, alongado ao máximo; tudo passou a caber num dia. A volta ao mundo que cabia em 80 dias, em 1872, coube em algumas horas, com a navegação espacial, na década de 1960. E a sensação que temos hoje é de dias que podem nunca acabar.


As grandes cidades reproduzem bem esta lógica do tempo maquinal. No homem, esta lógica cabe bem. Por um tempo; por um curto tempo. Depois, o esgarçamento.


Um sentimento de que tudo se pode; de que tempo para tudo se há, nos toma diariamente. Nada mais óbvio que não: erro claro. Acordamos com a sensação de que é necessário apenas organizarmo-nos para realizamos as tarefas demandadas no curso de um dia de trabalho. Ao meio-dia, vemos claramente que uma xícara mais de café mais será necessária, antes do final do dia. Um dia passou: um dia mais com algumas horas desperdiçadas desnecessariamente. E o desejo de que venha mais um dia para que se possa viver o tempo de modo produtivo; mais um dia a mais para que, neste, tempo não falte. Dia soma-se a dia.


Este modo de organização do tempo deu-nos agendas e calendários em diversos formatos; inoculados pela falta de tempo para anotações, pelo mal calculado. A velocidade com que vemos o tempo passar é tal como a visão de um trem que corre a uns palmos de nossos olhos. Sua velocidade nos causa tontura e atordoamento. Procuramos alguma naturalidade nos sintomas, sem convicção alguma. Acostumamo-nos. Até a próxima vez.


Quase crendo que amanhã haverá mais tempo, a ansiedade da correria nas cidades nos alucina proporcionalmente à sua velocidade. Tarefas nunca faltam; tarefas sobram. Mas talvez o tempo nos falte, por desorganização ou perversão – nossa.


A vida diária escorre pelos dedos; perdemos as rédeas do tempo, e – vemos – ele corre à nossa frente. Podemos navegar ao pôr-do-sol; alcançá-lo; deixá-lo para trás. O dia, entretanto, chega ao fim; a noite, enfim; de novo o dia.


Acabamo-nos sem terminar, pois amanhã haverá mais.... tempo.

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